Projeto
esportivo na zona leste de São Paulo tem como principal objetivo a formação de
crianças e jovens como cidadãos.
Por Igor Bispo
Situada no bairro de Itaquera, zona leste da cidade de São
Paulo, a escolinha de futebol Spah Esportes e Lazer já matriculou mais de cinco
mil alunos em vinte anos de existência. O fundador do projeto Antonio Carlos de
Souza, o Kal como é conhecido, relata a importância do esporte para a formação
de bons cidadãos: “A pratica do futsal e de outras atividades esportivas traz às
crianças conceitos de responsabilidade, coleguismo e disciplina’’. A sigla SPAH
significa Saúde, Paz, Amor e Harmonia, lemas que fazem parte da metodologia de
ensino da escolinha.
Uma curiosidade do projeto é o fato de o próprio dono (Kal)
participar ativamente das reformas do espaço esportivo, juntamente com seu pai,
que inclusive leva o nome do atual Ginásio: Albino Lino de Souza.
Fotos: Arquivo Spah / Evolução do espaço esportivo
durante os 21 anos de existência. 1995 (foto 1), 1998 (foto 2) e 2014 (foto3)
A ideia
central é oferecer uma oportunidade para os jovens interagirem entre si, aliado
à pratica esportiva e com baixo custo, além de ensinar os fundamentos de futsal
e sua pratica. Antes, a prioridade eram as crianças menos favorecidas
financeiramente, mas atualmente há outros públicos que fazem parte do projeto.
"A disciplina, trabalho em
equipe e respeito ao próximo, esses são os fatores mais importantes adquiridos.
Aprendi o valor da responsabilidade, compromissos e que a humildade te leva
longe. Sim sou o número #1 (risos). Saudades da velha quadra de futsal
cimentada, janelas com grades de ferro, era uma quadra pequena mas rolavam
grandes partidas. Joguei lá uns 12 anos. Foi bem legal, tive a oportunidade de
fazer muitos amigos, e acredito que o Spah tenha influenciado positivamente na
vida de cada um que passou por ali. "
Jefferson Ferreira (1º aluno
matriculado no Spah)
"Após me formar no curso de Educação Física em meados de 1997
conheci o Kal (...) Onde iniciei meus trabalhos com apenas dez alunos e os
treinos eram somente aos sábados. Então, fiz um projeto de treino às terças,
quintas e sábados, com cinco turmas. (...) Após seis meses de treinos já
tínhamos uns cem alunos e chegamos a ter mais de duzentos matriculados. Nós
professores somos o segundo pai, ou pai mesmo, um amigo, um ídolo. Temos o
papel de cuidar do futuro do aluno, dos sonhos, dos estudos. Eu gostava sempre
de dar trabalhos extras paras eles realizarem em casa, para estimular o
raciocínio. Ganhamos muitos campeonatos, disputamos várias competições, fizemos
bastante passeios. E uma coisa bacana era a interação entre as famílias dos
alunos. Estou muito feliz pois muitos alunos hoje são formados, têm uma ótima
profissão, são pais e tem uma família. "
Reinaldo ‘’ Titão ’’ (Professor que mais tempo
trabalhou no projeto)
A escolinha ainda faz parte de um outro projeto chamado Liga
Leste (Associação das escolas de futebol da zona leste) reúne as principais
escolinhas de futebol da região. “A ideia era oferecer maior interação com as
outras escolinhas para que as crianças se envolvessem mais ainda com o
esporte”, afirma Kal.
O tal projeto, também fundado por Kal tem como diferencial a
disputa campeonatos organizados pela Federação Paulista de Futsal, com os
alunos que mais se destacaram nas escolinhas, oferecendo maior visibilidade aos
atletas que participam. Ele ainda cita dois jogadores que se tornaram
profissionais e fizeram parte desse projeto. Jean Mota, meia do Santos, e
Maycon, volante do Corinthians, atualmente emprestado para a Ponte Preta. “São
garotos que sempre reconheceram nosso trabalho e lembram que começaram aqui com
a gente. É uma satisfação muito grande”.
"Pra mim ter
jogado na Liga Leste e no Spah foi um bom aprendizado, acho que a maioria dos
jogadores que começaram no futsal conseguem se sobressair no campo, isso nos
ajuda bastante, os fundamentos básicos, passe, dinâmica, velocidade de jogo,
drible, isso a gente aprende e aperfeiçoa com o futsal. Tive muitos
aprendizados também de vida, de como se virar sozinho, de ficar longe da
família algumas vezes, pra ir atrás de um sonho que hoje se tornou realidade,
pra mim foi muito importante esse começo em que pude aprender muito, tanto com
os profissionais do staff que davam todo o suporte pra gente, quanto com os
jogadores. Tenho amizades que começaram lá que levo até hoje comigo, então acho
que tanto pra vida profissional como pra pessoal isso me agregou muito. "
Jean Mota (Meia do Santos)
Você tem noção de
quantos alunos passaram por aqui durante esses 21 anos de escolinha?
Kal – Já passaram de cinco mil
inscritos, segundo nosso cadastro.
Qual foi o principal
motivo para a criação desse projeto?
Kal – A ideia inicial era dar
oportunidade para a criançada que fica na rua ter uma atividade esportiva de
baixo custo, para ocupa-la de alguma forma.
Qual a importância da
escolinha de futebol na formação das crianças como cidadãos?
Kal – A prática do futsal e de outras
atividades esportivas traz as crianças responsabilidades, conceito de
coleguismo, disciplina e inserção na sociedade. Todos esses são fatores muito
importantes para que a gente manter um projeto esportivo.
O que você sente quando
vê algum ex-aluno que passou por aqui virar jogador de futebol?
Kal – Nós temos o caso do Jean Mota,
meia do Santos e do Maycon do Corinthians. São garotos que sempre reconheceram
suas origens, tanto que quando dão entrevistas e citam que começaram no projeto
junto com a gente. É uma satisfação muito grande.
E quando você encontra
com aqueles ex-alunos que não viraram jogadores de futebol, mas que você
conseguiu ajuda-los de alguma outra forma?
Kal – A gente vê pelo caráter deles, e
como se tornaram boas pessoas, pois antes tinham muitas crianças que viviam na
rua e hoje estão trabalhando e se envolvendo em outras atividades. Seus
próprios filhos passam a frequentar aqui também e é uma gratificação muito
grande pra gente, pois reconhecem o nosso trabalho, que um dia foi feito para
eles.
A escolinha Spah faz
parte de um outro projeto também criado por você que é a Liga Leste. Como ele
funciona?
Kal – É a Associação das Escolas de
Futebol da Zona Leste. O projeto inicial era organizar campeonatos com
escolinhas da região de forma que as crianças interagissem entre si e tivessem
uma forma de se envolverem ainda mais através de competições. Quando se criou a
Liga Leste, o objetivo maior era congratular com todas as escolas da zona leste
e se possível de toda São Paulo. Posteriormente montar equipes com os alunos
que mais se destacaram para participar de campeonatos organizados pela
Federação Paulista de Futsal.
Qual foi o melhor
resultado que vocês conquistaram nesses campeonatos?
Kal – Fomos duas vezes campeões da série
prata na categoria sub-9. O ano passado fomos vice campeões na categoria sub
16. Esses são resultados que marcam o trabalho que vem sendo feito.
A participação da Liga
Leste nesses campeonatos traz maior visibilidade aos seus jogadores?
Kal – Com certeza. Um campeonato no qual
os atletas estão envolvidos em uma entidade como a Federação Paulista traz
maior visibilidade a eles. Uma pena que a Federação não pensa somente no
desenvolvimento do atleta. Existe ali um pensamento muito voltado à parte
financeira e isso deixa muito a desejar.
O que se pode fazer
para mudar esse pensamento da Federação? Qual sua sugestão?
Kal – Não temos muito o que fazer já que
todas as organizações voltadas ao esporte aqui no Brasil visam unicamente o
dinheiro. O único jeito de corrigir isso é colocar gente voltada ao esporte na
administração dessas entidades. Enquanto não tivermos pessoas que pensem no
humano em vez do dinheiro nos teremos esse problema.
Voltando a falar do
Spah, o que mudou nesses 21 anos do projeto?
Kal – O projeto hoje está mais
aperfeiçoado, com participações em campeonatos organizados por escolas e
agremiações. O público da região também melhorou seu poder aquisitivo. Antes o
trabalho era mais voltado para as crianças de rua e hoje conseguimos envolver
outros públicos.
Comente sobre o
processo de reforma do espaço esportivo e a intenção de crescimento do projeto.
Kal – Tivemos uma melhora significativa
na qualidade do espaço esportivo, passando por duas reformas em que aumentamos
as dimensões da quadra. Antes tínhamos um espaço de 14 metros de largura por 24
metros de comprimento e hoje aumentamos para 17 metros de largura por 36 metros
de comprimento. Essa medida está dentro dos padrões para a disputa de
campeonatos e essa reforma foi motivada para o desenvolvimento dos nossos
alunos, para prazer uma melhora do espaço de treinamento. Esperamos daqui pra
frente conseguir abrir uma outra unidade com condições ainda melhores para
promover esse esporte para a criançada.
Qual a contribuição dos
profissionais que passaram pela escolinha durante esse tempo? E o que você
prioriza na hora de contratar um educador?
Kal – A vivência com diversos
profissionais nesses 21 anos foi muito gratificante. Teve profissionais de
excelente tato com os alunos, outros já se envolviam na parte de competições e
isso é um diferencial nesses anos. Hoje visamos mais a sensibilidade na relação
humana do profissional com as crianças.
Quais os alunos atuais que
têm potencial para ser tornarem um profissional?
Kal – Os garotos que atingem esse
potencial normalmente são convidados pelos clubes grandes a jogarem em sua
categoria de base. Tivemos um exemplo de um aluno nosso de oito anos que no ano
retrasado o Corinthians viu jogar e já o convidou para fazer parte de sua
categoria de base. É essa a visibilidade que oferecemos. É uma pena que não
conseguimos segurar esses alunos por muito tempo, mas há muitos garotos
espalhados nas categorias de base de clubes grandes de São Paulo que começaram
aqui com a gente.
O que mais te marcou
nesses anos referente à participação da sua escolinha na sociedade?
Kal – Fora a pratica do esporte, nós
temos outras atividades voltadas para as crianças em datas pontuais como dia
das crianças e Natal. No Natal, distribuímos presentes e fazemos atividades
recreativas. O que mais me marcou foi um ano quando uma criança foi perguntada
pelo papai Noel o que queria ganhar de presente e ela respondeu que queria um
pai. Aquilo me comoveu muito e lembro disso até hoje.
Você se sente um pai
para essas crianças, sabendo que você contribui de alguma forma com elas?
Kal – Um pai eu não digo, pois querer
ser um pai é muito, mas de alguma forma, não só eu mas todos os voluntários
ajudam muito na formação dessas crianças e na estrutura dela para se tornarem
um ser humano melhor.
Você está realizado nesse
projeto? Sua missão está cumprida?
Kal – Jamais. A missão nunca está cumprida.
Enquanto estivermos aqui embaixo tem trabalho a fazer e queremos poder oferecer
cada vez mais para a nossa comunidade de forma que possam reconhecer o nosso
trabalho e estarem presentes em todos os eventos que a gente organizar.
