terça-feira, 18 de outubro de 2016

ESCOLINHA DE FUTEBOL EDUCA ATRAVÉS DO ESPORTE



Projeto esportivo na zona leste de São Paulo tem como principal objetivo a formação de crianças e jovens como cidadãos.

Por Igor Bispo


Situada no bairro de Itaquera, zona leste da cidade de São Paulo, a escolinha de futebol Spah Esportes e Lazer já matriculou mais de cinco mil alunos em vinte anos de existência. O fundador do projeto Antonio Carlos de Souza, o Kal como é conhecido, relata a importância do esporte para a formação de bons cidadãos: “A pratica do futsal e de outras atividades esportivas traz às crianças conceitos de responsabilidade, coleguismo e disciplina’’. A sigla SPAH significa Saúde, Paz, Amor e Harmonia, lemas que fazem parte da metodologia de ensino da escolinha.
Uma curiosidade do projeto é o fato de o próprio dono (Kal) participar ativamente das reformas do espaço esportivo, juntamente com seu pai, que inclusive leva o nome do atual Ginásio: Albino Lino de Souza.

 


Fotos: Arquivo Spah / Evolução do espaço esportivo durante os 21 anos de existência. 1995 (foto 1), 1998 (foto 2) e 2014 (foto3)




A ideia central é oferecer uma oportunidade para os jovens interagirem entre si, aliado à pratica esportiva e com baixo custo, além de ensinar os fundamentos de futsal e sua pratica. Antes, a prioridade eram as crianças menos favorecidas financeiramente, mas atualmente há outros públicos que fazem parte do projeto.

"A disciplina, trabalho em equipe e respeito ao próximo, esses são os fatores mais importantes adquiridos. Aprendi o valor da responsabilidade, compromissos e que a humildade te leva longe. Sim sou o número #1 (risos). Saudades da velha quadra de futsal cimentada, janelas com grades de ferro, era uma quadra pequena mas rolavam grandes partidas. Joguei lá uns 12 anos. Foi bem legal, tive a oportunidade de fazer muitos amigos, e acredito que o Spah tenha influenciado positivamente na vida de cada um que passou por ali. "
Jefferson Ferreira (1º aluno matriculado no Spah)



"Após me formar no curso de Educação Física em meados de 1997 conheci o Kal (...) Onde iniciei meus trabalhos com apenas dez alunos e os treinos eram somente aos sábados. Então, fiz um projeto de treino às terças, quintas e sábados, com cinco turmas. (...) Após seis meses de treinos já tínhamos uns cem alunos e chegamos a ter mais de duzentos matriculados. Nós professores somos o segundo pai, ou pai mesmo, um amigo, um ídolo. Temos o papel de cuidar do futuro do aluno, dos sonhos, dos estudos. Eu gostava sempre de dar trabalhos extras paras eles realizarem em casa, para estimular o raciocínio. Ganhamos muitos campeonatos, disputamos várias competições, fizemos bastante passeios. E uma coisa bacana era a interação entre as famílias dos alunos. Estou muito feliz pois muitos alunos hoje são formados, têm uma ótima profissão, são pais e tem uma família. "
                                                          Reinaldo ‘’ Titão ’’ (Professor que mais tempo trabalhou no projeto)




A escolinha ainda faz parte de um outro projeto chamado Liga Leste (Associação das escolas de futebol da zona leste) reúne as principais escolinhas de futebol da região. “A ideia era oferecer maior interação com as outras escolinhas para que as crianças se envolvessem mais ainda com o esporte”, afirma Kal.
O tal projeto, também fundado por Kal tem como diferencial a disputa campeonatos organizados pela Federação Paulista de Futsal, com os alunos que mais se destacaram nas escolinhas, oferecendo maior visibilidade aos atletas que participam. Ele ainda cita dois jogadores que se tornaram profissionais e fizeram parte desse projeto. Jean Mota, meia do Santos, e Maycon, volante do Corinthians, atualmente emprestado para a Ponte Preta. “São garotos que sempre reconheceram nosso trabalho e lembram que começaram aqui com a gente. É uma satisfação muito grande”.
 



"Pra mim ter jogado na Liga Leste e no Spah foi um bom aprendizado, acho que a maioria dos jogadores que começaram no futsal conseguem se sobressair no campo, isso nos ajuda bastante, os fundamentos básicos, passe, dinâmica, velocidade de jogo, drible, isso a gente aprende e aperfeiçoa com o futsal. Tive muitos aprendizados também de vida, de como se virar sozinho, de ficar longe da família algumas vezes, pra ir atrás de um sonho que hoje se tornou realidade, pra mim foi muito importante esse começo em que pude aprender muito, tanto com os profissionais do staff que davam todo o suporte pra gente, quanto com os jogadores. Tenho amizades que começaram lá que levo até hoje comigo, então acho que tanto pra vida profissional como pra pessoal isso me agregou muito. "
                                                                                                                      Jean Mota (Meia do Santos)



Em entrevista conosco, Kal descreve o projeto desde sua criação até os dias atuais, além de resultados alcançados e objetivos futuros. Confira:


Você tem noção de quantos alunos passaram por aqui durante esses 21 anos de escolinha?
Kal – Já passaram de cinco mil inscritos, segundo nosso cadastro.

Qual foi o principal motivo para a criação desse projeto?
Kal – A ideia inicial era dar oportunidade para a criançada que fica na rua ter uma atividade esportiva de baixo custo, para ocupa-la de alguma forma.

Qual a importância da escolinha de futebol na formação das crianças como cidadãos?
Kal – A prática do futsal e de outras atividades esportivas traz as crianças responsabilidades, conceito de coleguismo, disciplina e inserção na sociedade. Todos esses são fatores muito importantes para que a gente manter um projeto esportivo.

O que você sente quando vê algum ex-aluno que passou por aqui virar jogador de futebol?
Kal – Nós temos o caso do Jean Mota, meia do Santos e do Maycon do Corinthians. São garotos que sempre reconheceram suas origens, tanto que quando dão entrevistas e citam que começaram no projeto junto com a gente. É uma satisfação muito grande.

E quando você encontra com aqueles ex-alunos que não viraram jogadores de futebol, mas que você conseguiu ajuda-los de alguma outra forma?
Kal – A gente vê pelo caráter deles, e como se tornaram boas pessoas, pois antes tinham muitas crianças que viviam na rua e hoje estão trabalhando e se envolvendo em outras atividades. Seus próprios filhos passam a frequentar aqui também e é uma gratificação muito grande pra gente, pois reconhecem o nosso trabalho, que um dia foi feito para eles.


A escolinha Spah faz parte de um outro projeto também criado por você que é a Liga Leste. Como ele funciona?
Kal – É a Associação das Escolas de Futebol da Zona Leste. O projeto inicial era organizar campeonatos com escolinhas da região de forma que as crianças interagissem entre si e tivessem uma forma de se envolverem ainda mais através de competições. Quando se criou a Liga Leste, o objetivo maior era congratular com todas as escolas da zona leste e se possível de toda São Paulo. Posteriormente montar equipes com os alunos que mais se destacaram para participar de campeonatos organizados pela Federação Paulista de Futsal. 

Qual foi o melhor resultado que vocês conquistaram nesses campeonatos?
Kal – Fomos duas vezes campeões da série prata na categoria sub-9. O ano passado fomos vice campeões na categoria sub 16. Esses são resultados que marcam o trabalho que vem sendo feito.

A participação da Liga Leste nesses campeonatos traz maior visibilidade aos seus jogadores?
Kal – Com certeza. Um campeonato no qual os atletas estão envolvidos em uma entidade como a Federação Paulista traz maior visibilidade a eles. Uma pena que a Federação não pensa somente no desenvolvimento do atleta. Existe ali um pensamento muito voltado à parte financeira e isso deixa muito a desejar.

O que se pode fazer para mudar esse pensamento da Federação? Qual sua sugestão?
Kal – Não temos muito o que fazer já que todas as organizações voltadas ao esporte aqui no Brasil visam unicamente o dinheiro. O único jeito de corrigir isso é colocar gente voltada ao esporte na administração dessas entidades. Enquanto não tivermos pessoas que pensem no humano em vez do dinheiro nos teremos esse problema.

Voltando a falar do Spah, o que mudou nesses 21 anos do projeto?
Kal – O projeto hoje está mais aperfeiçoado, com participações em campeonatos organizados por escolas e agremiações. O público da região também melhorou seu poder aquisitivo. Antes o trabalho era mais voltado para as crianças de rua e hoje conseguimos envolver outros públicos.

Comente sobre o processo de reforma do espaço esportivo e a intenção de crescimento do projeto.
Kal – Tivemos uma melhora significativa na qualidade do espaço esportivo, passando por duas reformas em que aumentamos as dimensões da quadra. Antes tínhamos um espaço de 14 metros de largura por 24 metros de comprimento e hoje aumentamos para 17 metros de largura por 36 metros de comprimento. Essa medida está dentro dos padrões para a disputa de campeonatos e essa reforma foi motivada para o desenvolvimento dos nossos alunos, para prazer uma melhora do espaço de treinamento. Esperamos daqui pra frente conseguir abrir uma outra unidade com condições ainda melhores para promover esse esporte para a criançada.

Qual a contribuição dos profissionais que passaram pela escolinha durante esse tempo? E o que você prioriza na hora de contratar um educador?
Kal – A vivência com diversos profissionais nesses 21 anos foi muito gratificante. Teve profissionais de excelente tato com os alunos, outros já se envolviam na parte de competições e isso é um diferencial nesses anos. Hoje visamos mais a sensibilidade na relação humana do profissional com as crianças.

Quais os alunos atuais que têm potencial para ser tornarem um profissional?
Kal – Os garotos que atingem esse potencial normalmente são convidados pelos clubes grandes a jogarem em sua categoria de base. Tivemos um exemplo de um aluno nosso de oito anos que no ano retrasado o Corinthians viu jogar e já o convidou para fazer parte de sua categoria de base. É essa a visibilidade que oferecemos. É uma pena que não conseguimos segurar esses alunos por muito tempo, mas há muitos garotos espalhados nas categorias de base de clubes grandes de São Paulo que começaram aqui com a gente. 

O que mais te marcou nesses anos referente à participação da sua escolinha na sociedade?
Kal – Fora a pratica do esporte, nós temos outras atividades voltadas para as crianças em datas pontuais como dia das crianças e Natal. No Natal, distribuímos presentes e fazemos atividades recreativas. O que mais me marcou foi um ano quando uma criança foi perguntada pelo papai Noel o que queria ganhar de presente e ela respondeu que queria um pai. Aquilo me comoveu muito e lembro disso até hoje.

Você se sente um pai para essas crianças, sabendo que você contribui de alguma forma com elas?
Kal – Um pai eu não digo, pois querer ser um pai é muito, mas de alguma forma, não só eu mas todos os voluntários ajudam muito na formação dessas crianças e na estrutura dela para se tornarem um ser humano melhor.

Você está realizado nesse projeto? Sua missão está cumprida?
Kal – Jamais. A missão nunca está cumprida. Enquanto estivermos aqui embaixo tem trabalho a fazer e queremos poder oferecer cada vez mais para a nossa comunidade de forma que possam reconhecer o nosso trabalho e estarem presentes em todos os eventos que a gente organizar.